Chegou afobado em casa, certo dia, enquanto eu cozia na sala junto a Ofélia. Sua farda de tenente estava amassada e com ar de úmida, o que indicava que correra do quartel aqui e não caminhara calmamente como o usual. Estava claramente perturbado, todavia deixava entrever um sorriso no canto dos lábios. Preocupei-me. Disse à amiga que viesse outra hora.
João esperou que Ofélia saísse e deu-me um abraço e um beijo deveras estalado na face. Mesmo casados, nunca fomos muito de demonstrações públicas de afeto. Depois de passar o meu rubor perguntei lhe finalmente o motivo da euforia. Foi então que ele me falou. Explicou sobre a Revolução, sobre as revoltas das quais eu havia ouvido rumores. Falou-me que estava tomando forma, crescendo.
Preocupei-me ainda mais. Já sabia o que estava por vir. João nunca se conformou com corrupção, com fraudes, com a subserviência ao capital estrangeiro e os baixos soldos que recebia mensalmente. João era um revolucionário e essa era a sua chance, mas teria de partir.
De repente sua vida pacata sem regalias já não lhe era mais suficiente. João quis partir e partiu. Chegou à revolta antes do tempo em que a chamavam de Coluna. Disse-me que voltava e mesmo que o meu amor aumente a esperança, estes são tempos difíceis e instáveis. O espírito dele sempre foi inquieto e revolucionário, sei que está onde queria estar. Mesmo assim, a ansiedade e a preocupação ainda me dominam. Sinto saudades. Desde que partiu, fiquei sem paz, sem amor, sem João.
Antes de partir, me pediu que lhe guardasse as memórias da revolução. Decidi então colá-las todas neste caderno. Este fora o último pedido que João me fizera antes de partir. O meu fora que ele me amasse para sempre e que em seu coração coubesse a mim, ao lado da revolução.