De fato, nossa ideia das reuniões não poderia ter tido melhores resultados. “Produtivo” não chega perto de descrever o nosso primeiro encontro. Acima de tudo, foi enternecedor. Nesses tempos difíceis, não nos bastam a esperança e o sonho da vitória: é necessário também o apoio daqueles que nos são importantes.
Além do caráter firme, minhas comadres são mulheres de um coração extremamente nobre. Adulou-me saber que havia, afinal, pessoas no mundo que se importassem o suficiente para ouvir-me desnudar a alma e expor-lhes minhas sôfregas agonias.
Ofélia também esteve presente. Embora não tenha seu marido guerreando, ela toma as dores das amigas para ela. Sua imparcialidade é primordial para a tomada de nossas decisões.
Josefa havia falado com Quimério, um primo distante seu, para nos ministrar uma breve aula acerca da revolta. O mancebo é deveras bem informado! Suas explicações aguçaram-me tanto o raciocínio que consegui repelir as emoções que tentavam subir-me à pele.
Quimério explicou-nos a eleição de Artur Bernardes por meio de uma charge. Senti-me imensamente desgostosa ao tomar conhecimento de como infames líderes ascendem ao poder. O voto de cabresto é uma política repugnante! Posteriormente, falou-nos da repressão do movimento no Rio de Janeiro e mostrou-nos também uma foto. Naquele publicado, havia uma breve menção do que havia ocorrido. No entanto, ao lê-lo, eu sequer pude conceber a dimensão do acontecimento:
A Revolta do Forte de Copacabana tomou lugar no dia 5 de julho de 1922. O estopim foi a publicação das cartas falsas, às quais o publicado assinalou devidamente. Epitácio Pessoa, então, sentenciou injustamente Hermes da Fonseca culpado. O marechal foi preso sob a acusação de agitador. Sob tais circunstâncias, os bravos tenentes do Forte de Copacabana conglomeraram-se armados a favor da moralização do país de forma a salvar a honra do Exército. Para evitar seu alastramento, o governo reprimiu duramente a rebelião. 17 militares e um civil, no entanto, seguiram pela Avenida Atlântica, no Rio de Janeiro, dispostos a deixar clara sua oposição. Apenas dois deles, Eduardo Gomes e Siqueira Campos, escaparam com vida.
Enquanto Quimério prosseguia com suas explicações, sumiu-me a cor. Pela minha cabeça, passava-se apenas a imagem de meu amado sendo baleado enquanto batalhava por um país melhor. Tratei de afastar tal pensamento quando ouvi o moçoilo mencionar um “Segundo 5 de julho”.
O Segundo 5 de julho sobreveio já no governo do vil Artur Bernardes. No ano passado, 1924, explodiu no Estado do Café com objetivos bem determinados – os tenentes, no comando de Isidoro Dias Lopes e Miguel da Costa, almejavam uma República Liberal moralizada pelo voto secreto, a real separação autônoma dos três poderes, a obrigatoriedade do ensino primário e profissional e o respeito às leis e à justiça. Apesar das tentativas, não conseguiram tomar São Paulo, e cerca de mil rebeldes formaram a coluna paulista e rumaram à Foz do Iguaçu, onde uniram-se aos revoltosos gaúchos.
Ainda não terminei de processar toda a informação que obtive sobre os “5 de julho”, mas espero poder logo arranjar um tempo para, de fato, refletir. Sou grande partidária da ideia de se conhecer puramente determinado assunto para, então, poder conceber uma opinião. Enquanto isso, a saudade de meu amado não me abandona. Estou resolvendo-me ainda se lhe escrevo para dizer que tomei conhecimento daquilo de que ele tentou manter-me de fora. Tomara que a bronca não seja grande!

