quinta-feira, 5 de maio de 2011

Para opinar, é preciso entender.

De fato, nossa ideia das reuniões não poderia ter tido melhores resultados. “Produtivo” não chega perto de descrever o nosso primeiro encontro. Acima de tudo, foi enternecedor. Nesses tempos difíceis, não nos bastam a esperança e o sonho da vitória: é necessário também o apoio daqueles que nos são importantes.

Além do caráter firme, minhas comadres são mulheres de um coração extremamente nobre. Adulou-me saber que havia, afinal, pessoas no mundo que se importassem o suficiente para ouvir-me desnudar a alma e expor-lhes minhas sôfregas agonias. 

Ofélia também esteve presente. Embora não tenha seu marido guerreando, ela toma as dores das amigas para ela. Sua imparcialidade é primordial para a tomada de nossas decisões. 

Josefa havia falado com Quimério, um primo distante seu, para nos ministrar uma breve aula acerca da revolta. O mancebo é deveras bem informado! Suas explicações aguçaram-me tanto o raciocínio que consegui repelir as emoções que tentavam subir-me à pele. 

Quimério explicou-nos a eleição de Artur Bernardes por meio de uma charge. Senti-me imensamente desgostosa ao tomar conhecimento de como infames líderes ascendem ao poder. O voto de cabresto é uma política repugnante! Posteriormente, falou-nos da repressão do movimento no Rio de Janeiro  e mostrou-nos também uma foto. Naquele publicado, havia uma breve menção do que havia ocorrido. No entanto, ao lê-lo, eu sequer pude conceber a dimensão do acontecimento:


Como funciona o voto de cabresto

Revoltosos de Copacabana

A Revolta do Forte de Copacabana tomou lugar no dia 5 de julho de 1922. O estopim foi a publicação das cartas falsas, às quais o publicado assinalou devidamente. Epitácio Pessoa, então, sentenciou injustamente Hermes da Fonseca culpado. O marechal foi preso sob a acusação de agitador. Sob tais circunstâncias, os bravos tenentes do Forte de Copacabana conglomeraram-se armados a favor da moralização do país de forma a salvar a honra do Exército. Para evitar seu alastramento, o governo reprimiu duramente a rebelião. 17 militares e um civil, no entanto, seguiram pela Avenida Atlântica, no Rio de Janeiro, dispostos a deixar clara sua oposição. Apenas dois deles, Eduardo Gomes e Siqueira Campos, escaparam com vida.  

Enquanto Quimério prosseguia com suas explicações, sumiu-me a cor. Pela minha cabeça, passava-se apenas a imagem de meu amado sendo baleado enquanto batalhava por um país melhor. Tratei de afastar tal pensamento quando ouvi o moçoilo mencionar um “Segundo 5 de julho”.

O Segundo 5 de julho sobreveio já no governo do vil Artur Bernardes. No ano passado, 1924, explodiu no Estado do Café com objetivos bem determinados – os tenentes, no comando de Isidoro Dias Lopes e Miguel da Costa, almejavam uma República Liberal moralizada pelo voto secreto, a real separação autônoma dos três poderes, a obrigatoriedade do ensino primário e profissional e o respeito às leis e à justiça. Apesar das tentativas, não conseguiram tomar São Paulo, e cerca de mil rebeldes formaram a coluna paulista e rumaram à Foz do Iguaçu, onde uniram-se aos revoltosos gaúchos. 

Ainda não terminei de processar toda a informação que obtive sobre os “5 de julho”, mas espero poder logo arranjar um tempo para, de fato, refletir. Sou grande partidária da ideia de se conhecer puramente determinado assunto para, então, poder conceber uma opinião. Enquanto isso, a saudade de meu amado não me abandona. Estou resolvendo-me ainda se lhe escrevo para dizer que tomei conhecimento daquilo de que ele tentou manter-me de fora. Tomara que a bronca não seja grande!


Hoje...

Hoje faz exatamente quatro anos desde que recebi a primeira carta de meu amado. Ainda se viceja em minha memória o que senti ao abrir o envelope. Embora estivesse morrendo de saudade, não deixei de sentir-me extasiada: meu marido, afinal, fazia história naquele exato momento. Pensei que ele viria a ser um herói nacional; e eu, sua respeitável esposa. 

Agora, reinam em mim as inquietações e as incertezas. Não sei se o verei novamente. Conquanto responda-lhe as cartas de forma efusiva, o que mais desejo é tê-lo de novo em meus braços e ver nos olhos dele o mesmo brilho que sinto transmitir pelos meus – um brilho de compreensão que apazigua as preocupações daquele a que é vinculado pela alma. 

Estivesse ele partindo neste exato momento, eu lhe seguraria pela manga da casaca e não lhe deixaria ir-se. João levou com ele o meu coração e me deixou só com a dor e com o desespero. 

Hoje também é a primeira reunião das esposas de tenentes. Conversando com a mulher de Anauro, Josefa, e outras comadres, percebi que temos apenas uma vaga ideia daquilo que se passa com nossos esposos e com os demais militares. Nenhuma de nós sabe afinco sobre a situação em que se encontram ou sobre a ideologia que defendem. Por tal razão, decidimos conjuntar-nos em um pequeno grupo, convidando alguém mais capaz de nos explicar as circunstâncias. 

Já é hora de ir-me ao encontro. Espero poder concentrar-me racionalmente e deixar o que acha o coração de lado para então poder registrar fielmente o que me foi dito.

Sonhar consola...

Aconteceu-me chorar ontem a noite inteira. Mal consegui pregar os olhos por tentar compenetrar-me da situação à qual se expõe meu amado marido. Maldito seja aquele publicado que, para mim, não soa mais do que agourentas notícias!

Perdi a conta de quantas vezes já o li: talvez tenham sido cinco ou vinte vezes. Não consigo mensurar. O fato é que cada palavra ali escrita dói em meu espírito como oitenta facadas. 

Hoje, para distrair-me, comecei a ler o polêmico Lima Barreto. Embora a obra já não me seja tão contemporânea, “O Triste Fim de Policarpo Quaresma” conseguiu aproximar-se da definição da transmutação da bravura de um militar ao receio daqueles que com ele se preocupam. Em uma das muitas memoráveis passagens do livro, há, ao meu julgar, mérito suficiente para que eu a transcreva neste caderno:

“É bom pensar, sonhar consola.”
“Consola, talvez; mas faz-nos também diferentes dos outros, cava abismos entre os homens...”

Resta-me esperar que os sonhos de um futuro melhor que têm nossos gloriosos tenentes sejam indispensáveis na hora do embate e possam cavar abismos entre a persistência de nossos indômitos militares e a opressão imprimida pelos injustos oligárquicos, configurando o fator decisivo na vitória contra os desmandos de poder.

O Publicado

Nossa Senhora Protetora das Esposas Preocupadas, ajudai-me neste momento de descontrole emocional! Acabei de receber de minha solicita comadre Josefa o publicado que, mais cedo, prometera-me.

Sequer sei dizer o que se passa em minha mente. Ainda não me dei conta da situação para poder refletir. Li e reli as palavras escritas e, por mais que entenda as construções gramaticais, não entendo as construções semânticas. 

O mais difícil de tudo é dar-me conta de que tenho vivido alienadamente ao que ocorre na nação. Soa-me tão egocêntrico saber que, enquanto meu amado combate corajosamente as injustiças dessa oligarquia, minha maior preocupação era o remendo que faria em meu vestido preferido.

Honestamente, não estou em condições de escrever mais. Por enquanto, vou anexar o tal publicado neste caderno. Oh, meu Deus!





            É simplesmente um ultraje à tão antiga e honrada sociedade um presidente que coloque nosso exército em segundo plano. Afronta maior ainda é que nosso ex-presidente Epitácio Pessoa tenha feito público seu apoio a um indigno que publicou por meio de Cartas Falsas tão inglórias mentiras sobre nossos bravos heróis militares. A comoção dos tenentes não é sem razão! Houvesse de fato uma República Liberal, como aquela que consta na Constituição de 1891, os motins em andamento não seriam necessários. Tenho fé convicta na idéia de que, concedendo maior poder político aos militares, nossa amada pátria mover-se-ia para frente. 

            Sinto imensa cólera em saber que à frente de nossa nação está Artur Bernardes. Quão grande foi a tristeza que me preencheu ao receber a notícia da repressão ao movimento no forte de Copacabana! Aqueles dezoito homens certamente são magnânimos guerreiros a serem eternizados em nossos corações brasileiros. É realmente um desmando de poder que o governo tenha tido a audácia de tamanha injustiça. Ousadia maior ainda foi a de fechar o clube militar. Onde está a liberdade por que este país tanto lutou? Devemos permanecer firmes na batalha. Por mais que ajamos isoladamente ou conjuntos em grupo, estamos unidos pela mesma razão. Que nossos irmãos no Rio Grande do Sul, liderados pelo tenaz Luis Carlos Prestes, tenham toda a força de que precisem. E que nós, guerreiros paulistas, prossigamos em pé sobre a guia de nosso líder Miguel Costa. 

            A estrutura de poder do país é frágil: precisa ser demolida para ser reconstruída com mais sólidos alicerces. Por isso, meus caros, declaro meu apoio completo aos nossos bravos tenentes. Vamos mostrar que quem faz o Estado do Café, nosso querido São Paulo, o Estado do Leite, a coligada Minas Gerais, e o restante da pátria amada somos nós, o povo! E nós, o povo, estamos fartos de governos que se movam em função das oligarquias rurais.  Que nossas eleições sejam movidas pela justiça. Que cada cidadão brasileiro possa escolher seu candidato e tenha respeitado o direito de manter-se em silêncio sobre tal escolha. Que não nos sejam impostas condições para eleger determinado líder. Essa política opressora já não nos satisfaz. Lutemos também, meus caros, pelo direito à educação, base construtora e motora das civilizações mais desenvolvidas. Havendo conhecimento da situação e capacidade de julgar além do senso comum, incitaremos levantamentos por parte de todos os brasileiros. Os ricos barões só nos oprimem por sermos, muitas vezes, ignorantes e leigos naquilo que tange a nossos direitos como cidadãos. Então, meus prezados, proponho que mostremos aos defensores das oligarquias rurais que o dinheiro não é condição bastante para determinar uma hierarquia política. Batalhemos, assim, por tudo aquilo que nossa inerte liberdade já nos garante. Força máxima aos nossos justos tenentes!

Inquietação


Cá estou escrevendo com o âmago dividido entre a surpresa e a preocupação de alguém que acaba de tomar consciência de uma situação muito maior do que a esperada. Tão cedo o sol raiou, levantei-me e dediquei-me às trivialidades domésticas de sempre.  Mas apartando-se dos afazeres do lar estava a minha mente. Desde o último contato com meu amado, não me deixam as fantasias do dia de seu retorno. Preenche-me a saudade de nossas agradáveis conversas, de seu companheirismo único, de sua graça radiante e, especialmente, de sua vistosa alegria contínua. Ah, como me faz falta aquela cadente risada contagiante! Foi a memória de meu querido que compeliu-me à visita que fiz à comadre Josefa, esposa do também corajoso Anauro. Saí de casa logo após ter-me satisfeito da fome de almoço e fui encontrar Ofélia, convidando-a a me acompanhar. Minha querida amiga jamais me deixou na mão!

Chegamos, então, à casa de Josefa e deparamo-nos com a pobre mulher chorando o Rio Amazonas. Coitada! A princípio, achei que causa para ela quase afogar-se em lágrimas era a morte de sua mãe. Perder um ente querido, ainda mais aquele que à vida lhe trouxe, é sempre muito doloroso. Quisera eu que fosse apenas isso! Josefa não tardou inteirar-me de suas preocupações acerca da revolução.

Tão logo a comadre começou a falar, lembrei-me de que ainda não havia tido chance de descobrir o que acontecia no movimento para o qual meu marido bravamente partira. Já havia bastante tempo e muitas cartas desde que recebi a primeira notícia de meu apreciado João e, então, fiz-me a promessa de tornar-me ciente do que se passava na revolta. O pensamento de que deixei de lado tal tarefa – que eu mesma me incumbi – me envergonhou. 

Aparentemente, tudo estava fora de controle. Há certo tempo uma rebelião no Rio de Janeiro fora brutalmente abafada pelo torpe Artur Bernardes. Eu nem mesmo sabia que ele havia sido eleito presidente! E mais: não somente em São Paulo, cidade do café onde se encontra meu adorado, mas também no Rio Grande do Sul, estabelece-se a revolta contra os grandes desmandos de poder. 

Josefa disse que me conseguirá ainda hoje cópia de um publicado clandestino sobre os tenentes que lera nesta manhã. Disse que preciso, como ela, levar um choque de realidade acerca de toda a movimentação. Assusta-me a idéia do que posso vir a saber.

Oh, quisera eu ser Ofélia, cujo esposo permanece em casa afagando-lhe o espírito! Como inquieta-me informar-me dos riscos que corre meu amado!