quinta-feira, 5 de maio de 2011

O Publicado

Nossa Senhora Protetora das Esposas Preocupadas, ajudai-me neste momento de descontrole emocional! Acabei de receber de minha solicita comadre Josefa o publicado que, mais cedo, prometera-me.

Sequer sei dizer o que se passa em minha mente. Ainda não me dei conta da situação para poder refletir. Li e reli as palavras escritas e, por mais que entenda as construções gramaticais, não entendo as construções semânticas. 

O mais difícil de tudo é dar-me conta de que tenho vivido alienadamente ao que ocorre na nação. Soa-me tão egocêntrico saber que, enquanto meu amado combate corajosamente as injustiças dessa oligarquia, minha maior preocupação era o remendo que faria em meu vestido preferido.

Honestamente, não estou em condições de escrever mais. Por enquanto, vou anexar o tal publicado neste caderno. Oh, meu Deus!





            É simplesmente um ultraje à tão antiga e honrada sociedade um presidente que coloque nosso exército em segundo plano. Afronta maior ainda é que nosso ex-presidente Epitácio Pessoa tenha feito público seu apoio a um indigno que publicou por meio de Cartas Falsas tão inglórias mentiras sobre nossos bravos heróis militares. A comoção dos tenentes não é sem razão! Houvesse de fato uma República Liberal, como aquela que consta na Constituição de 1891, os motins em andamento não seriam necessários. Tenho fé convicta na idéia de que, concedendo maior poder político aos militares, nossa amada pátria mover-se-ia para frente. 

            Sinto imensa cólera em saber que à frente de nossa nação está Artur Bernardes. Quão grande foi a tristeza que me preencheu ao receber a notícia da repressão ao movimento no forte de Copacabana! Aqueles dezoito homens certamente são magnânimos guerreiros a serem eternizados em nossos corações brasileiros. É realmente um desmando de poder que o governo tenha tido a audácia de tamanha injustiça. Ousadia maior ainda foi a de fechar o clube militar. Onde está a liberdade por que este país tanto lutou? Devemos permanecer firmes na batalha. Por mais que ajamos isoladamente ou conjuntos em grupo, estamos unidos pela mesma razão. Que nossos irmãos no Rio Grande do Sul, liderados pelo tenaz Luis Carlos Prestes, tenham toda a força de que precisem. E que nós, guerreiros paulistas, prossigamos em pé sobre a guia de nosso líder Miguel Costa. 

            A estrutura de poder do país é frágil: precisa ser demolida para ser reconstruída com mais sólidos alicerces. Por isso, meus caros, declaro meu apoio completo aos nossos bravos tenentes. Vamos mostrar que quem faz o Estado do Café, nosso querido São Paulo, o Estado do Leite, a coligada Minas Gerais, e o restante da pátria amada somos nós, o povo! E nós, o povo, estamos fartos de governos que se movam em função das oligarquias rurais.  Que nossas eleições sejam movidas pela justiça. Que cada cidadão brasileiro possa escolher seu candidato e tenha respeitado o direito de manter-se em silêncio sobre tal escolha. Que não nos sejam impostas condições para eleger determinado líder. Essa política opressora já não nos satisfaz. Lutemos também, meus caros, pelo direito à educação, base construtora e motora das civilizações mais desenvolvidas. Havendo conhecimento da situação e capacidade de julgar além do senso comum, incitaremos levantamentos por parte de todos os brasileiros. Os ricos barões só nos oprimem por sermos, muitas vezes, ignorantes e leigos naquilo que tange a nossos direitos como cidadãos. Então, meus prezados, proponho que mostremos aos defensores das oligarquias rurais que o dinheiro não é condição bastante para determinar uma hierarquia política. Batalhemos, assim, por tudo aquilo que nossa inerte liberdade já nos garante. Força máxima aos nossos justos tenentes!

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