Cá estou escrevendo com o âmago dividido entre a surpresa e a preocupação de alguém que acaba de tomar consciência de uma situação muito maior do que a esperada. Tão cedo o sol raiou, levantei-me e dediquei-me às trivialidades domésticas de sempre. Mas apartando-se dos afazeres do lar estava a minha mente. Desde o último contato com meu amado, não me deixam as fantasias do dia de seu retorno. Preenche-me a saudade de nossas agradáveis conversas, de seu companheirismo único, de sua graça radiante e, especialmente, de sua vistosa alegria contínua. Ah, como me faz falta aquela cadente risada contagiante! Foi a memória de meu querido que compeliu-me à visita que fiz à comadre Josefa, esposa do também corajoso Anauro. Saí de casa logo após ter-me satisfeito da fome de almoço e fui encontrar Ofélia, convidando-a a me acompanhar. Minha querida amiga jamais me deixou na mão!
Chegamos, então, à casa de Josefa e deparamo-nos com a pobre mulher chorando o Rio Amazonas. Coitada! A princípio, achei que causa para ela quase afogar-se em lágrimas era a morte de sua mãe. Perder um ente querido, ainda mais aquele que à vida lhe trouxe, é sempre muito doloroso. Quisera eu que fosse apenas isso! Josefa não tardou inteirar-me de suas preocupações acerca da revolução.
Tão logo a comadre começou a falar, lembrei-me de que ainda não havia tido chance de descobrir o que acontecia no movimento para o qual meu marido bravamente partira. Já havia bastante tempo e muitas cartas desde que recebi a primeira notícia de meu apreciado João e, então, fiz-me a promessa de tornar-me ciente do que se passava na revolta. O pensamento de que deixei de lado tal tarefa – que eu mesma me incumbi – me envergonhou.
Aparentemente, tudo estava fora de controle. Há certo tempo uma rebelião no Rio de Janeiro fora brutalmente abafada pelo torpe Artur Bernardes. Eu nem mesmo sabia que ele havia sido eleito presidente! E mais: não somente em São Paulo, cidade do café onde se encontra meu adorado, mas também no Rio Grande do Sul, estabelece-se a revolta contra os grandes desmandos de poder.
Josefa disse que me conseguirá ainda hoje cópia de um publicado clandestino sobre os tenentes que lera nesta manhã. Disse que preciso, como ela, levar um choque de realidade acerca de toda a movimentação. Assusta-me a idéia do que posso vir a saber.
Oh, quisera eu ser Ofélia, cujo esposo permanece em casa afagando-lhe o espírito! Como inquieta-me informar-me dos riscos que corre meu amado!
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