terça-feira, 19 de abril de 2011

A Primeira Carta

   “São Paulo, 26 de setembro de 1921

            Amália Amada,

            Meus braços tremem de carência por teus afagos! Achei em minha mala o lenço de algodão que bordastes com tanto esmero que ainda guarda o teu perfume tão doce e inesquecível. Teu cheiro acompanhou-me durante toda a viagem. (...).

Fora o tempo que pensei em ti, minha viagem decorreu sem imprevistos.

O afã de encontrar os revolucionários era muito grande dentro de mim. Queria logos conhecer os rostos da gente que lutaria ao meu lado por uma pátria ética

            Fiquei perdido quando cheguei ao local em que aconteceria a primeira reunião. O forte cheiro de tabaco se alastrava e por um momento fiquei tonto e acabei esbarrando em um sujeito alto e de botas pretas de quem logo garrei amizade. Chama-se Anauro. Debatemos por um longo prazo no qual acabei por descobrir uma notícia horrenda: Arthur Bernardes seria o próximo candidato lançado por conta do acordo entre Minas e SP. Pude sentir minhas veias da testa saltarem! Depois de retomada a compostura, tratei de me enturmar com o resto de meus colegas promovendo um discurso que foi o começo de tudo.

            Comecei indagando o processo de eleição do nosso país. Como procede a um cidadão votar abertamente se a falta da imparcialidade lhe facilita a coação pelos mais fortes e bem providos?  É claro que esse cidadão de nada entende do processo, já que a educação pública no país está alhures.

Deixo de chatear lhe agora com essas oficialidades. Afinal o que entende você desses assuntos, não é mesmo minha flor? O importante é que com minha fala, ganhei o respeito dos presentes na reunião.

            Se não for muito incômodo, poderia fazer o favor de uma visita? A mulher de Anauro mora perto e está inconformada desde a sua partida, além de que sua mãe falecera recentemente, a pobre mulher está bambeando. Pobre homem já não sabia mais o que fazer com a mulher e me pediu como quem pede perdão que eu lhe implorasse que fosse visitá-la. O endereço está no final da carta. Confio no seu coração deveras materno e consolador que faças um pouco mais feliz a pobre senhora.

Volto-lhe a escrever assim que possível.

 Com amor, com saudade, do sempre sempre seu

            João”


Um comentário:

  1. Cara Amélia,
    sinto-lhe informar, mas como deixaras teu esposo partir?
    Defender uma rebelião que já estara condenada desde o princípio é suicídio. É admirável o amor de João pelo seu país, porém a maneira que está demonstrando-o é incorreta.
    As eleições são realizadas com o intuito de desenvolver o Brasil. Pra que não seja grande apenas em seu território, mas que seja forte internacionalmente. Nossa marca é a exportação de matérias, para que haja êxito é necessária a colocação de governantes que entendam do assunto. Se suas autoridades estão no poder é porque têm a visão mais ampla do que a do seus governados. Continue esperando pelo seu amor e não deixes que o memsmo repita tal loucura.

    T.F.

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